E, em pleno Verão, o que seria uma esplendorosa manhã de sol: Não foi.
Nesse dia o sol não nasceu. (sim...como no livro do saramago: nesse dia ninguém morreu)
Claro que ninguém estava à espera. Ninguém está à espera de nada que seja diferente do que sempre é.
Nesse dia o sol não quis nascer ou talvez não tivesse mesmo podido. Todos acordaram às horas do costume. As buzinas do lado de lá da janela e o alarme do despertador do lado de dentro acompanhado de um tactear de uma mão que ainda cambaleia. E a automatização do acto de abrir a janela para nos ofendermos com a estúpida abundância de luz que fazia tremer os olhos e os gestos.
Fazia. Naquele dia não fez. E todos estavam preocupados em fazer mover as suas rotinas; mas, sem luz, a tarefa não seria facilitada.
Tanto fazia se haviam ou não motivos. Tanto fazia se todo o sistema solar tivesse ganho personalidade e tivesse decidido engolir o Sol de uma dentada. O importante eram os prejuízos todos para nós. Uma coisa era se tivéssemos, nós mesmos, decidido dar uma folga ao tutor das estrelas. Mas não o tínhamos feito. Por isso restar-nos-ia passar um dia que, ao começar mal, não podia acabar bem. Decerto que haveria ainda mais trânsito. Mais mau humor. Mais empurrões no comboio e nos autocarros. Braços e malas alheias a roçar atrevidamente no livro que estávamos a tentar ler. Mais crianças a chorar na rua. Mais pastas de executivos a cair e a dar asas aos milhentos papéis no seu interior engavetado. Mais gente deprimida. Medo de que a falta do Sol fosse um sinal claro do fim do mundo e não houvesse tempo para despedidas ou abraços de última hora. Mais exames chumbados. Mais discussões. Enfim… um dia, literalmente, negro.
E seria assim. E a noite não chegaria porque já lá estava. Amanhecida. As horas correriam nos relógios de pulso e de parede como sempre. E, como a nossa vida é agitada e raramente há tempo para perder no que é preciso, nem sequer haveria uma conferência para debater as possíveis causas. Quanto muito uma Manif em tom de protesto presunçoso.
Ótimo. Até aqui todos de acordo.
E algures escondido, o Sol acabaria por se cansar de esperar que alguém se dignasse a procurá-lo. E entristeceria. Será que a ninguém passou pela cabeça que o Sol, como tutor das outras estrelas todas, é grande (e tem que o ser) e encontrar um esconderijo adaptado leva muito tempo?
De forma muito sucinta, não querendo de forma nenhuma retirar importância ao Tutor de Luz, não é fácil ter uma profissão assim. Iluminar todo um mundo de gente. Para que lhes seja mais fácil abrir olhos para o que é importante ver. Vendo luz todos os dias (e durante um período alargado de tempo, a não ser que chova) há motivos para arrancar de dentro vontades de viver (não podendo controlar o mais) melhor. Ou pelo menos era assim que devia ser.
E claro que foi doloroso para o Sol estar longe da sua tarefa luminosa. O pobre tentou esconder-se por detrás de um papagaio de papel (desses que os miúdos conseguem a muito custo pôr a voar) Queria avisar o mundo de pessoas que se esquecem sempre de olhar para cima, que há muito mais vida para além daquilo a que nos limitamos.
(claro que o papagaio de papel acabou por arder… A Estrela Maior não tinha consciência do seu tamanho. Mas a intenção era boa)
Por entre soluços fervidos e lágrimas infantis para uma estrela daquele tamanho, o Sol falava assim para uma estrela que tinha nascido entretanto com falta de luz maior.
Esqueceram-se todos.
De quê?
De tudo o que é importante. De olhar cá para cima.
Ensinaram-lhes que olhar para o Sol queima os olhos…Ninguém quer ter os olhos queimados…
Não me parece que isso faça grande sentido. Todos eles passam o tempo a deixar queimar a alma com coisas que têm lá dentro.
Um dia vão perceber. Ninguém quer ser escuro por dentro.
Sim. E se não querem ser escuros, porque não veio ninguém procurar-me?
Post scriptum: Há vezes em que, quando não se encontra luz, é preciso ir à procura dela. Como quem quer mesmo muito ir buscá-la.

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