domingo, 13 de setembro de 2009

O dia em que o Sol não nasceu (e queimou um papagaio de papel)

E, em pleno Verão, o que seria uma esplendorosa manhã de sol: Não foi.


Nesse dia o sol não nasceu.
(sim...como no livro do saramago: nesse dia ninguém morreu)

Claro que ninguém estava à espera. Ninguém está à espera de nada que seja diferente do que sempre é.

Nesse dia o sol não quis nascer ou talvez não tivesse mesmo podido. Todos acordaram às horas do costume. As buzinas do lado de lá da janela e o alarme do despertador do lado de dentro acompanhado de um tactear de uma mão que ainda cambaleia. E a automatização do acto de abrir a janela para nos ofendermos com a estúpida abundância de luz que fazia tremer os olhos e os gestos.
Fazia. Naquele dia não fez. E todos estavam preocupados em fazer mover as suas rotinas; mas, sem luz, a tarefa não seria facilitada.

Tanto fazia se haviam ou não motivos. Tanto fazia se todo o sistema solar tivesse ganho personalidade e tivesse decidido engolir o Sol de uma dentada. O importante eram os prejuízos todos para nós. Uma coisa era se tivéssemos, nós mesmos, decidido dar uma folga ao tutor das estrelas. Mas não o tínhamos feito. Por isso restar-nos-ia passar um dia que, ao começar mal, não podia acabar bem. Decerto que haveria ainda mais trânsito. Mais mau humor. Mais empurrões no comboio e nos autocarros. Braços e malas alheias a roçar atrevidamente no livro que estávamos a tentar ler. Mais crianças a chorar na rua. Mais pastas de executivos a cair e a dar asas aos milhentos papéis no seu interior engavetado. Mais gente deprimida. Medo de que a falta do Sol fosse um sinal claro do fim do mundo e não houvesse tempo para despedidas ou abraços de última hora. Mais exames chumbados. Mais discussões. Enfim… um dia, literalmente, negro.

E seria assim. E a noite não chegaria porque já lá estava. Amanhecida. As horas correriam nos relógios de pulso e de parede como sempre. E, como a nossa vida é agitada e raramente há tempo para perder no que é preciso, nem sequer haveria uma conferência para debater as possíveis causas. Quanto muito uma
Manif em tom de protesto presunçoso.

Ótimo. Até aqui todos de acordo.

E algures escondido, o Sol acabaria por se cansar de esperar que alguém se dignasse a procurá-lo. E entristeceria. Será que a ninguém passou pela cabeça que o Sol, como tutor das outras estrelas todas, é grande (e tem que o ser) e encontrar um esconderijo adaptado leva muito tempo?

De forma muito sucinta, não querendo de forma nenhuma retirar importância ao Tutor de Luz, não é fácil ter uma profissão assim. Iluminar todo um mundo de gente. Para que lhes seja mais fácil abrir olhos para o que é importante ver. Vendo luz todos os dias (e durante um período alargado de tempo, a não ser que chova) há motivos para arrancar de dentro vontades de viver (não podendo controlar o mais) melhor. Ou pelo menos era assim que devia ser.

E claro que foi doloroso para o Sol estar longe da sua tarefa luminosa. O pobre tentou esconder-se por detrás de um papagaio de papel (desses que os miúdos conseguem a muito custo pôr a voar) Queria avisar o mundo de pessoas que se esquecem sempre de olhar para cima, que há muito mais vida para além daquilo a que nos limitamos.

(claro que o papagaio de papel acabou por arder… A Estrela Maior não tinha consciência do seu tamanho. Mas a intenção era boa)

Por entre soluços fervidos e lágrimas infantis para uma estrela daquele tamanho, o Sol falava assim para uma estrela que tinha nascido entretanto com falta de luz maior.

Esqueceram-se todos.

De quê?

De tudo o que é importante. De olhar cá para cima.

Ensinaram-lhes que olhar para o Sol queima os olhos…Ninguém quer ter os olhos queimados…

Não me parece que isso faça grande sentido. Todos eles passam o tempo a deixar queimar a alma com coisas que têm lá dentro.

Um dia vão perceber. Ninguém quer ser escuro por dentro.

Sim.
E se não querem ser escuros, porque não veio ninguém procurar-me?



Post scriptum: Há vezes em que, quando não se encontra luz, é preciso ir à procura dela. Como quem quer mesmo muito ir buscá-la.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Palhaço




Sobe, desce.
Dá uma cambalhota, rebola.
Cai ao chão e dá um trambolhão.
Palhaço!
Sempre com um sorriso.
Pronto a dar a mão.
Alerta, se alguém está triste.
Palhaço
Faz o salto do trampolim.
Pula como um canguru.
Parece feito de borracha.
Rebola, salta, sorri
Mesmo quando está triste
Não deixa de sorrir
As suas lágrimas não aparecem
Ficam lá dentro
Trancadas
Estranguladas
.
Ah! Palhaço ser o que és não é fácil.
Mas é bom saber que existe
Cara alegre, quando se está triste.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos, entender que não entendo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Amor pra recomeçar


`

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo...

E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar
De duvidar...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu desejo!
Que você ganhe dinheiro
Pois é preciso
Viver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar...